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Laços do Florescer
Sala de aula e educação infantil

Educação antirracista na educação infantil: por onde começar

Criança pequena percebe cor muito antes de saber falar sobre isso. O silêncio da escola não é neutralidade — é uma resposta, e ela ensina alguma coisa.

Publicado em 20/08/2026 Atualizado em 20/08/2026 13 min de leitura Por Laços do Florescer
Três crianças de tons de pele diferentes pintando juntas na mesma folha

Há uma frase que circula muito e trava o assunto antes de ele começar: criança não vê cor.

Ela é bem-intencionada e não corresponde ao que se observa. Criança pequena percebe diferenças de aparência muito antes de saber falar sobre elas — e absorve, do mundo em volta, os significados que essas diferenças carregam.

O que a escola faz diante disso importa. E não fazer nada também é fazer alguma coisa.

Por que começa na primeira infância

  • A percepção é precoce. Bebês já distinguem rostos e tons; crianças pequenas comentam cabelo, pele e traços com naturalidade, porque estão organizando o mundo em categorias.
  • O significado vem de fora. A criança não nasce com hierarquia racial. Ela aprende — em quem aparece nos livros, em quem é o herói do desenho, em quem trabalha em quê nas histórias que ouve.
  • A autoimagem se constrói agora. É nesta faixa que a criança forma a ideia de quem ela é. Uma criança negra que nunca se vê representada aprende algo sobre o próprio lugar sem que ninguém diga uma palavra.
  • O silêncio não é neutro. Quando o adulto muda de assunto diante de um comentário sobre cor, ele comunica que aquilo é constrangedor — e a criança que sofreu fica sem apoio.
A troca que orienta tudo

Em vez de "somos todos iguais", que apaga, o caminho é "somos diferentes, e isso é bom". Negar a diferença não protege a criança negra — só a deixa sozinha com o que ela percebe.

O que a lei determina

Este ponto é útil na conversa com a coordenação, e costuma ser mal compreendido — inclusive por quem defende o tema.

A Lei nº 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, e a Lei nº 11.645/2008 ampliou para incluir a história e a cultura indígena. O texto de ambas menciona expressamente o ensino fundamental e médio.

Aqui está a sutileza que faz diferença: essas leis alteram a LDB — a Lei de Diretrizes e Bases, que rege toda a educação nacional. Não são normas isoladas para uma etapa. E as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, instituídas pelo Parecer CNE/CP 03/2004 e pela Resolução CNE/CP 01/2004, orientam a educação básica como um todo, da qual a educação infantil é a primeira etapa.

Somando-se a isso, a BNCC trata de identidade, diferença e convivência no campo O eu, o outro e o nós, e diversos currículos de rede já explicitam a temática étnico-racial na educação infantil.

Ou seja: quem disser que a lei "não vale para a educação infantil" está lendo o texto sem ler o que ele altera. Não existe base para tratar a primeira etapa como exceção.

O que não é educação antirracista

Uma semana em novembro. Concentrar o assunto na Consciência Negra e voltar ao normal em dezembro comunica que aquilo é tema de data, não parte da vida.

Fantasia. Vestir a turma de "africano" com pintura no rosto e saia de palha transforma cultura em folclore congelado — e reforça exatamente o estereótipo que se quer desmontar. África não é um país, e não tem uma roupa.

"Somos todos iguais." A intenção é boa, o efeito é apagar. Se somos todos iguais, a criança que ouviu que o cabelo dela é feio não tem onde encaixar o que viveu.

Um personagem negro entre vinte. Representação de cota, sempre coadjuvante, ensina hierarquia sem dizer nada.

Falar de escravidão como origem. Na educação infantil, apresentar pessoas negras primeiro pela escravização instala uma associação difícil de desfazer. A história começa muito antes, e o presente é cheio de gente.

Transformar a criança negra em exemplo. Usá-la para ilustrar o tema, pedir que fale sobre o próprio cabelo diante da turma, apontá-la como referência. Isso a expõe, e ninguém pede o mesmo a uma criança branca.

O que fazer no cotidiano

A educação antirracista na primeira infância é feita menos de projeto e mais de ambiente. O que aparece todo dia é o que ensina.

  • Bonecas e bonecos negros e indígenas disponíveis o ano inteiro, não como exceção — e em quantidade equivalente, não uma no meio de dez.
  • Livros com protagonismo negro e indígena, sobre assuntos comuns: dormir, brincar, ter medo, ir à escola. Não apenas livros "sobre racismo". A criança precisa se ver vivendo, não só resistindo.
  • Imagens na parede que reflitam a turma real e o mundo real, incluindo adultos negros e indígenas em posições de autoridade e afeto.
  • Tinta e lápis em vários tons de pele. A caixa com um único tom chamado "cor de pele" ensina qual pele é a padrão. Misturar tons com a turma e nomear cada um é atividade excelente.
  • Espelho baixo e propostas de autorretrato, com material que permita a criança se representar de verdade.
  • Nomes. Aprender a pronunciar corretamente todos os nomes da turma, inclusive os de origem africana e indígena, e não apelidar para simplificar.
  • Música e brincadeiras de matriz africana e indígena na rotina, sem apresentação de data.
  • Culinária e objetos do cotidiano com origem reconhecida e nomeada.
  • Histórias da comunidade. Convidar famílias para contar o que sabem, com cuidado para não transformar ninguém em atração.
Isso conecta com

Sobre como escolher e conduzir as leituras, veja contação de histórias na educação infantil. Sobre datas sem molde pronto, datas comemorativas com sentido.

Cabelo, o tema mais concreto

Na educação infantil brasileira, o cabelo é onde o racismo aparece com mais frequência — e onde a intervenção é mais direta.

Crianças negras ouvem, muito cedo, que o cabelo delas é "ruim", "duro", "armado", "bombril". Isso costuma vir de outras crianças, que repetem o que ouviram em casa ou viram na televisão, e às vezes vem de adultos, em tom de brincadeira.

O que a escola pode fazer:

  • Nomear os tipos de cabelo com naturalidade — liso, ondulado, cacheado, crespo — como se nomeia cor de olho. Sem hierarquia, sem eufemismo.
  • Ter livros e imagens com cabelo crespo em destaque, não escondido.
  • Incluir cabelo crespo nas propostas de autorretrato, com material que permita representá-lo — lã, papel crepom, tinta com textura.
  • Não deixar passar o comentário. "Cabelo ruim" precisa de resposta imediata e tranquila: "não existe cabelo ruim. Existem cabelos diferentes, e o dele é crespo."
  • Não tocar sem pedir. Adultos e crianças costumam pegar no cabelo crespo sem autorização. É invasão, e a escola deve tratar como tal.
  • Cuidado com o elogio comparativo. "Que lindo, tá tão arrumadinho" diz que solto seria bagunçado.

Quando o racismo acontece na sala

Vai acontecer, e a forma de responder é o que mais ensina — à turma inteira, não só às duas crianças envolvidas.

Não é "coisa de criança". A criança pequena não inventou o significado, mas ela o está reproduzindo, e o efeito sobre quem recebe é real. Vale registrar também que injúria racial é crime no Brasil — o que não se aplica a crianças pequenas, mas se aplica aos adultos da escola e ao que a instituição tolera.

No momento:

  1. Interrompa na hora, com calma e sem gritar.
  2. Acolha primeiro quem sofreu. "O que ele falou não é verdade, e não foi legal. Eu estou aqui." A prioridade é a criança atingida, não a correção da outra.
  3. Nomeie sem rotular. Diga que aquela frase machuca e não é verdade, sem chamar a outra criança de racista — ela tem 4 anos e está reproduzindo.
  4. Explique com precisão. "Não existe cabelo feio. Cada pessoa tem um tipo."
  5. Não force pedido de desculpa automático. Desculpa decorada não repara. Melhor construir a compreensão e depois retomar.
  6. Retome com a turma, em outro momento, sem citar nomes — com um livro, uma roda, uma proposta que trate do tema de frente.
  7. Registre. O que aconteceu, o que foi feito, o que se combinou.
  8. Converse com as duas famílias, separadamente, com a coordenação junto.
O erro mais comum na hora

Dizer "não foi por mal" ou "ele não sabe o que está falando" minimiza diante de quem sofreu. A intenção de quem falou não muda o efeito sobre quem ouviu — e a criança negra aprende, nesse momento, se a escola está do lado dela.

Com as famílias

  • Comunique o trabalho antes. Explicar por que a escola trabalha relações étnico-raciais evita boa parte da resistência.
  • Espere alguma resistência. Ela costuma vir na forma de "estão colocando isso na cabeça das crianças". A resposta é que as crianças já recebem essas mensagens — a escola só está oferecendo outras.
  • Avise a família quando algo acontecer com a criança dela, dos dois lados, sem transformar em julgamento.
  • Ouça as famílias negras e indígenas sobre o que elas observam. Elas costumam perceber coisas que a equipe não vê.
  • Cuidado ao pedir que uma família represente uma cultura inteira.

A formação da equipe

Nenhuma lista de atividades funciona sem isto, e é a parte mais difícil.

  • Formação continuada de verdade, com tempo pago e continuidade, não uma palestra por ano em novembro.
  • Toda a equipe, incluindo cozinha, portaria e limpeza — que também convivem com as crianças e também são atravessados pelo tema.
  • Olhar para a própria composição. Quem ocupa quais funções na escola? A criança lê essa distribuição sem que ninguém explique.
  • Revisar o acervo. Contar quantos livros da biblioteca têm protagonista negro ou indígena costuma ser o dado mais impactante de uma reunião pedagógica.
  • Aceitar o desconforto. Errar, ser corrigido e ajustar faz parte. O medo de errar é o que mais produz silêncio — e silêncio é o pior resultado possível.
Para começar esta semana

Conte quantos livros da sua sala têm protagonista negro ou indígena, e quantos deles tratam de assuntos comuns em vez de racismo ou escravidão. O número costuma surpreender — e corrigir o acervo é a intervenção de maior efeito por menor custo.

Referências: Lei nº 10.639/2003 e Lei nº 11.645/2008, que alteram a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional; Parecer CNE/CP 03/2004 e Resolução CNE/CP 01/2004, que instituem as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais; Base Nacional Comum Curricular. Verifique também o currículo da sua rede, que pode trazer orientações próprias para a etapa.

Perguntas frequentes

A Lei 10.639 vale para a educação infantil?

O texto da Lei nº 10.639/2003 e da Lei nº 11.645/2008 menciona ensino fundamental e médio, mas ambas alteram a LDB, que rege toda a educação nacional. Além disso, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, instituídas em 2004, orientam a educação básica como um todo, e a educação infantil é a primeira etapa dela. Não há base para tratar essa etapa como exceção.

Criança pequena entende sobre racismo?

Criança pequena percebe diferenças de aparência muito antes de saber falar sobre elas, e absorve do mundo em volta os significados que essas diferenças carregam. Ela não nasce com hierarquia racial — aprende em quem aparece nos livros, em quem é o herói do desenho e em quem ocupa quais lugares nas histórias que ouve.

Por que não dizer que somos todos iguais?

Porque a frase apaga em vez de proteger. Se somos todos iguais, a criança que ouviu que o cabelo dela é feio não tem onde encaixar o que viveu. O caminho é reconhecer a diferença e valorizá-la: somos diferentes, e isso é bom.

O que fazer quando uma criança fala algo racista na sala?

Interromper na hora com calma, acolher primeiro quem sofreu, nomear que a frase machuca e não é verdade sem rotular a outra criança, explicar com precisão, evitar pedido de desculpa automático, retomar o tema com a turma depois sem citar nomes, registrar e conversar com as duas famílias separadamente. Dizer “não foi por mal” minimiza diante de quem sofreu.

Como trabalhar a questão do cabelo na educação infantil?

Nomeando os tipos com naturalidade — liso, ondulado, cacheado, crespo — como se nomeia cor de olho, tendo livros e imagens com cabelo crespo em destaque, incluindo-o nas propostas de autorretrato com material que permita representá-lo, e respondendo de imediato a comentários como “cabelo ruim”. Também é importante não tocar no cabelo de ninguém sem pedir.

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Este texto faz parte do canteiro Sala de aula e educação infantil. Veja também o índice completo da Biblioteca do Cuidar.