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Fases e desenvolvimento

Primeira infância: até que idade vai e o que a lei brasileira garante

No Brasil, primeira infância tem definição legal: os primeiros seis anos completos. E tem uma lei própria, de 2016, com direitos concretos que quase ninguém conhece.

Publicado em 20/08/2026 Atualizado em 20/08/2026 11 min de leitura Por Laços do Florescer
Criança desenhando um coração no vidro embaçado da janela

O termo aparece em política pública, em nome de programa, em texto de escola e em conversa de pediatra. E raramente alguém explica onde ele começa e onde termina.

No Brasil, essa resposta não é aproximada. Primeira infância tem definição em lei — e a lei que a define traz junto uma série de direitos que a maior parte das famílias desconhece.

Até que idade vai

A Lei nº 13.257, de 8 de março de 2016, conhecida como Marco Legal da Primeira Infância, estabelece no artigo 2º que primeira infância é o período que abrange os primeiros seis anos completos, ou 72 meses de vida da criança.

Ou seja: do nascimento até o dia em que a criança completa 6 anos.

Vale uma nota, porque gera confusão: em outros contextos — pediatria, psicologia do desenvolvimento, organismos internacionais — a faixa pode ser descrita de forma um pouco diferente, às vezes até os 5, às vezes até os 8 anos. No Brasil, quando se fala de política pública, direito ou documento oficial, a referência é a definição legal de seis anos completos.

Por que o recorte é esse

Seis anos não é número arbitrário: é aproximadamente o período em que o cérebro forma conexões no ritmo mais intenso de toda a vida, e é também o intervalo que antecede a entrada no ensino fundamental. A janela em que o investimento tem maior retorno é justamente a que historicamente recebeu menos atenção.

Por que essa fase tem nome próprio

  • Velocidade de desenvolvimento. Nenhum outro período da vida concentra tanta construção — motora, cognitiva, emocional e de linguagem — em tão pouco tempo.
  • Dependência total. A criança não consegue sozinha buscar o que precisa. O que chega até ela depende inteiramente dos adultos e das políticas em volta.
  • Efeito duradouro. O que acontece aqui — cuidado, estímulo, vínculo, mas também estresse e privação — deixa marcas que atravessam a vida adulta.
  • Retorno do investimento. É o consenso econômico que sustentou a lei: cada real investido em primeira infância rende mais que o mesmo real investido em qualquer etapa posterior.

Os primeiros mil dias

Dentro da primeira infância há um recorte ainda mais específico, e ele aparece em quase todo documento oficial sobre o tema.

Os primeiros mil dias compreendem a gestação e os dois primeiros anos de vida — cerca de 270 dias de gravidez mais 730 de vida. É reconhecido como janela de oportunidade única para o desenvolvimento neurológico, cognitivo, psicomotor e emocional.

Na prática, isso desloca o cuidado para antes do nascimento: pré-natal, saúde e apoio à gestante fazem parte da política de primeira infância, não são etapa anterior a ela.

Isso conecta com

Para o que esperar em cada etapa dentro dessa faixa, veja marcos do desenvolvimento infantil e fases do desenvolvimento.

O Marco Legal de 2016

A Lei nº 13.257/2016 foi sancionada sem vetos e é considerada uma das legislações mais avançadas do mundo no tema. Ela não cria um benefício isolado: estabelece princípios e diretrizes para todas as políticas públicas dirigidas a essa faixa, e altera de uma vez cinco normas diferentes.

Entre o que ela determina:

  • Prioridade nas políticas públicas para crianças de até 6 anos, com articulação entre saúde, educação, assistência social, cultura e justiça.
  • Atenção à gestante e à família, incluindo apoio no pré-natal e nos primeiros meses.
  • Profissionais qualificados especificamente em primeira infância.
  • Participação da criança na formulação das políticas que lhe dizem respeito, por meio de escuta adequada à idade dela.
  • Proteção a gestantes e mães em privação de liberdade, com alterações no Código de Processo Penal.
  • Atenção a mulheres que optam por entregar o filho à adoção, sem julgamento.
  • Direito ao brincar, explicitado como direito.

Os direitos que quase ninguém conhece

Aqui está a parte mais útil no dia a dia, e a menos divulgada. A lei acrescentou dispositivos à CLT e ampliou o Programa Empresa Cidadã:

  • Licença-paternidade de 20 dias. A lei ampliou de 5 para 20 dias — mas somente para empregados de empresas inscritas no Programa Empresa Cidadã. Fora dele, permanecem os 5 dias. Vale conferir com o RH se a empresa aderiu, porque muita gente tem o direito e não sabe.
  • Até 2 dias para acompanhar consultas e exames durante a gravidez da esposa ou companheira, sem desconto no salário.
  • 1 dia por ano para acompanhar filho de até 6 anos em consulta médica.
  • Prorrogação da licença-maternidade por 60 dias no Programa Empresa Cidadã, totalizando 180 dias, benefício que também vale em caso de adoção ou guarda para fins de adoção.
Vale conferir hoje

Pergunte no RH se a empresa aderiu ao Programa Empresa Cidadã. É uma adesão voluntária com incentivo fiscal, e a diferença é grande: 20 dias de licença-paternidade em vez de 5, e 180 dias de licença-maternidade em vez de 120.

O brincar como direito

Vale destacar, porque muda o argumento em conversa com escola e com família.

O brincar não aparece na legislação brasileira como recreação ou como recompensa. Ele é tratado como direito da criança — no Estatuto da Criança e do Adolescente e reafirmado no Marco Legal, ao lado da estimulação e do cuidado.

Isso tem consequência prática: quando uma escola de educação infantil substitui brincadeira por atividade de folha, ou quando o recreio é retirado como punição, não se está apenas fazendo uma escolha pedagógica discutível — está-se restringindo algo que a lei trata como direito.

Isso conecta com

Sobre o que a brincadeira constrói e por que ela não se substitui, veja a importância do brincar.

O que isso significa para a escola

Para quem trabalha em creche e pré-escola, o Marco Legal oferece fundamento em quatro situações concretas:

  • Ao defender a brincadeira diante de cobrança por conteúdo escolarizado.
  • Ao pedir formação específica. A lei prevê profissionais qualificados em primeira infância — o que sustenta o pedido de formação continuada, não como cortesia da instituição.
  • Ao articular com saúde e assistência social. A previsão de política intersetorial dá base para acionar a UBS e o CRAS quando a escola percebe algo que extrapola o pedagógico.
  • Ao escutar a criança. A lei prevê participação infantil com escuta adequada à idade — o que legitima assembleias, combinados construídos com a turma e decisões que incluem a voz delas.

E vale lembrar o que já está em outro lugar do ordenamento: a educação infantil é a primeira etapa da educação básica, e a matrícula é obrigatória a partir dos 4 anos — de modo que boa parte da primeira infância acontece dentro da escola.

Referências: Lei nº 13.257, de 8 de março de 2016 (Marco Legal da Primeira Infância), art. 2º e alterações à CLT, ao ECA, ao Código de Processo Penal e à Lei nº 11.770/2008. Conteúdo informativo, que não substitui orientação jurídica — para a sua situação específica, vale consultar o RH da empresa ou um advogado trabalhista.

Perguntas frequentes

Até que idade vai a primeira infância?

No Brasil, a Lei nº 13.257/2016 define primeira infância, no artigo 2º, como o período que abrange os primeiros seis anos completos, ou 72 meses de vida da criança. Em outros contextos, como pediatria e organismos internacionais, a faixa pode ser descrita de forma um pouco diferente, mas para política pública e documento oficial a referência é a definição legal.

O que é o Marco Legal da Primeira Infância?

É a Lei nº 13.257, de 8 de março de 2016, que estabelece princípios e diretrizes para as políticas públicas dirigidas a crianças de até seis anos. Ela altera o ECA, o Código de Processo Penal, a CLT e a lei do Programa Empresa Cidadã, e trata de temas como licença-paternidade, atenção à gestante, profissionais qualificados e o direito ao brincar.

A licença-paternidade é de 20 dias para todo mundo?

Não. A ampliação de 5 para 20 dias vale apenas para empregados de empresas inscritas no Programa Empresa Cidadã, que é uma adesão voluntária com incentivo fiscal. Fora dele permanecem os 5 dias. Vale perguntar no RH se a empresa aderiu, porque muita gente tem o direito e não sabe.

O que são os primeiros mil dias?

São a gestação somada aos dois primeiros anos de vida — cerca de 270 dias de gravidez mais 730 de vida. Esse período é reconhecido como janela de oportunidade única para o desenvolvimento neurológico, cognitivo, psicomotor e emocional, o que faz do pré-natal e do apoio à gestante parte da política de primeira infância.

O brincar é um direito previsto em lei?

Sim. O brincar é tratado como direito da criança no Estatuto da Criança e do Adolescente e reafirmado no Marco Legal da Primeira Infância, ao lado da estimulação e do cuidado. Isso significa que substituir brincadeira por atividade de folha ou retirar o recreio como punição não é apenas escolha pedagógica discutível — restringe algo que a lei trata como direito.

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Este texto faz parte do canteiro Fases e desenvolvimento. Veja também o índice completo da Biblioteca do Cuidar.